segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Eppur si muove


1 - Eppur si muove
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                                                 .."Para o homem não é fácil começar a pensar.
                                          No entanto, uma vez que consegue fazê-lo,
                                          nunca mais pára"
                                          Jean Jacques Roussau
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Na Terra, muita coisa mudara no mundo, em recentes anos e - em última análise -, desde a célebre frase de Galileu "Eppur si muove", a que os inquisidores do Santo Ofício não terão atribuído o verdadeiro significado. 
Aí despontava - ou renascia das cinzas da noite medieval que ofuscara os Gregos - o verdadeiro génio científico que haveria de fazer do homem um viajante das Estrelas e do Cosmos. A luneta do sábio mostrara claramente que a Lua era semelhante à Terra; até se lhe viam montanhas, planícies e o mar!... Júpiter provou sem remissão não ser "fogo vivo", principiando a desvelar os seus segredos e as suas quatro pérolas: Io, Calisto, Europa e Ganimede. Saturno, esse, expunha os seus anéis, como uma virgem jovem e púdica pela primeira vez expõe os seus.
Este fora o descobridor das ignoradas coisas de cima, o primeiro visionário da lonjura e do tempo, nas asas ágeis da óptica e no desassossego de procurar mais além. Viu para além da vista, o que ninguém vira. E, de ver, imaginou o que não via. Afinal, sempre haveria de haver outros mundos, outras madrugadas possíveis, outras noites de lua e de estrelas!
Mais tarde - muito... ou pouco mais tarde?... - vencida a força que nos traz amarrados pelos pés, ao umbigo da terra, um outro homem colocava nos mares celestes um ínfimo relógio a acordar-nos todas as manhãs, com um poético bip bip. Era a consagração do espírito cósmico, do ser-pensante. O primeiro passo do "deus nas alturas" a olhar-nos, como se fôssemos nós mesmos, do cimo do Olimpo inacessível e temido.
Depois foi a sucessão conhecida dos feitos imorredoiros que fizeram o sonho último dos inquietos, e que encheram de pavor, ou pura e simplesmente deixaram indiferentes os imbecis e os ignorantes. 
Este mesmo homem que já fora Pitecanthropos e Cro-magnon, que apenas vivera para viver e só merecera do chão da terra o seu fim último, ensaiava uma série de experiências visando perceber o sentido desconhecido da vida e os seus limites. Estaríamos sós no Universo? Seria ele intransponível ou completamente inóspito para o nosso metabolismo de carvão e água, ou seria possível alcançá-lo, abarcar o seu todo e uma pluralidade ou infinidade de mundos habitados, ou a habitar?
Soavam ainda os ecos de provável vida biológica perto de nós, nos canali de Marte, observados por Percival Lowell e exacerbados por Orion Welles, na célebre rábula da invasão dos marcianos que assustou meio mundo yankee
Como seria essa vida? Seria igual à nossa? Ou parecida, ao menos, como Robison pretendia por volta do primeiro quartel do século XX, pintando os Marcianos como criaturas espertas, de longas orelhas e olhos como feijões caritos, imitando as feições dum chinês, bebedores de chá e hábeis condutores de automóveis?
O homem pensante, o astrónomo, todos os inquietos, não desistiram. Puseram-se a pensar, a desenhar, a fazer espelhos e tubos para ver mais longe ou, apenas... a deduzir equações intermináveis.
E um belo dia, munidos da ciência da pólvora e dos pássaros, punham no Espaço um enxame de abelhas, a ver se elas construíam hexagonais os seus favos e se a hierarquia terrestre se mantinha, lá no alto, próximo dos deuses. Ensinou macacos a voar, segredou segredos inconfessáveis a vermes e répteis, disse aos pássaros que havia outras ilhas, para além dos mares. E com a mesma singela naturalidade com que domesticou animais pondo-os ao seu serviço, desde Lascaux e Kapovaya, deu asas à cadela Laika, para que ela pudesse admirar, por ele, o esplendor do planeta, feito de azul e luz. Passados tantos anos, séculos de gerações que se foram multiplicando no deslumbramento de ser e na angústia da existência precária e breve, o pobre animal perdura na memória dos homens, na sua ânsia de absoluto, no seu questionar infatigável de si mesmo e do seu destino; não terá o esplendor mítico da máscara de  ouro de Totankhamon, mas parece olhar o infinito da mesma maneira, podendo ainda hoje admirar-se embalsamada, num museu de Leste, como a um faraó, ou um fresco de Miguel Ângelo.
As portas do Céu abriam-se; Yuri Gagarine ficou para a História, ilustrando-se e imortalizando-se, por ser o primeiro a transpo-la. 
A Era Espacial aí estava.
E depois das primeiras e tímidas viagens no interior do Sistema, o homem aventurava-se mais além, no reino das estrelas.
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 em A FEBRE DO OURO, pág 9
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