segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O COMETA DO "VINHO DO PORTO"

Desenho da Época.

Em Março de 1811, um astrónomo francês de nome Honoré Flaugergues, fez saber da existência dum cometa que haveria de mostrar-se de grande brilho, no Outono desse mesmo ano, e que seria muito facilmente visível a olho nu.
Nalgumas gravuras desse tempo, ele aparece retratado com cabeça de mulher e um archote nas mãos, com que pegava fogo às videiras, já que era Setembro, a época das vindimas!
Napoleão, optimista, antes das desastrosas campanhas da Rússia, tinha-o considerado um bom augúrio; afinal, ele terá sido um bom prenúncio, sim… para os seus inimigos!
E a posteriori, segundo Guillemin, o astro foi tido pelos franceses, como responsável pelas derrotas de Bonaparte na Rússia, e na batalha de Smolenski…
E embora por toda a Europa o cometa tivesse aterrorizado as populações, não fugindo Portugal à onda de irracionalidade, aconteceu que, nesse ano de 1811, tivesse sido produzida uma colheita de Vinho do Porto de qualidade rara, classificada como vintage de 5 estrelas!
Logo, os mais interessados (os produtores de célebre néctar), numa manobra publicitária oportunista e muito bem atempada, se aprestaram a associar a excepcional qualidade do vinho ao aparecimento do cometa e o seu bom presságio… muito embora nesse mesmo ano, tivessem caído as exportações do célebre vinho!
A atribuição da denominação vintage passou a ser utilizada daí em diante. Chamaram-lhe Flaugergues, como haveriam de dar o nome de Waterloo, à colheita de 1815, quando outro grande cometa fez a sua aparição.
"A correlação do vintage do Vinho do Porto de 1811 com o grande cometa desse ano, afigurava-se perfeita", segundo disse H. Warner Allen (A History of   Wine, Londres, 1961.
Entretanto, na velha Europa, o povo julgou que o cometa era anunciador do fim do mundo, gerando um onda de terror, com já havia acontecido noutras épocas (e que, pelos vistos, continua a acontecer sempre que algo de muito incomum acontece nos céus… e até nas convulsões da própria Terra).
Ninguém ficou indiferente à imponência do cometa, tanto mais que ele acabou por permanecer nos céus, durante nove meses!
Até na prestigiada Histoire de l’Astronomie, publicada em Paris, em 1873, Ferdinand Hoefer lhe fez referência.
Sob o ponto de vista científico, há a assinalar que um grande astrónomo desses tempos, Herschel, sustentou, e com razão, que este tipo de astros também está sujeito a um movimento de rotação, com os planetas e seus satélites.
Para além de ter sido calculada a cauda do cometa em cerca de 150 milhões de quilómetros – a distancia Terra/Sol – e a cabeleira nuns 2 milhões, um outro astrónomo, Argelander, calculou a órbita do cometa em 3.065 anos!
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* Extracto do meu livro "História Breve dos Cometas"

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